Jovens negros de 21 anos têm 147% mais chances de serem assassinados

Unknown | 16:50:00 | 0 comentários


Olhando sempre para baixo e apertando os dedos com força, a copeira hospitalar Luzia Mourão, 44 anos, ainda não consegue esconder a penitência que é falar do filho assassinado há seis meses. “Jamais esperei receber uma notícia como essa. Na hora, não sabia se ficava nervosa, se corria até o colégio… Meu filho saiu de casa bem, pediu a bênção para mim e, então, estava morto.” Danilo Roger Silva Sousa morreu aos 17 anos, assassinado a facadas por um colega de escola de 16 anos.

Os dois adolescentes estudavam no Centro de Ensino Médio 2 (CEM 2), na QNM 14, em Ceilândia Norte. O caso aconteceu em setembro do ano passado e, segundo a Polícia Militar, uma discussão por conta de uma bolinha de papel incitou o crime. “Ainda hoje, tem dias em que começo a caminhar e me percebo desorientada, porque ele aparece no meu pensamento.” Danilo dá rosto a uma estatística cruel, como mostra uma série de reportagens que o Correio Braziliense começa a publicar hoje. Em uma realidade que se repete em todo o Brasil, os homens negros de 15 a 29 anos são os que mais morrem entre todas as faixas etárias. E, em sua grande maioria, por homicídio.

Dados da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) apontam que as chances de um jovem negro morrer assassinado são 5,7 vezes maiores que um branco. O custo dessas mortes não fica limitado ao pranto ininterrupto das famílias. Há ainda um prejuízo para a sociedade. E ele pode ser medido. Os jovens mortos precocemente representam um vácuo de mão de obra, o que fará imensa falta no futuro. Somente no DF, as perdas decorrentes dessa mortalidade chegam a consumir 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Em valores brutos, esse percentual equivale a mais de R$ 3 bilhões. “Existe uma demarcação muito clara de quem morre no Brasil. E, para além das tragédias humanas, temos as consequências econômicas dessas mortes”, garante o pesquisador do Ipea Daniel Cerqueira.

Ele é um dos autores do Atlas da Violência 2016, divulgado pelo órgão na última semana, que aponta não somente o estado de guerra civil que o país vive atualmente, com uma taxa de homicídio que cresceu 21,4% entre 2004 e 2014, mas o quanto essas mortes ocorrem principalmente entre a juventude negra. De acordo com o documento, aos 21 anos, eles têm 147% mais chances de sofrerem um homicídio que um jovem de outra cor de pele. A gravidade desse problema é ainda mais emergencial quando fica demonstrado que o contingente populacional que forma a juventude brasileira vai cair a partir de 2023 e não será capaz de sustentar uma população com um número de idosos cada vez maior. Tal realidade traz consequências não só para o mercado de trabalho, mas para o sistema de previdência brasileiro e para o sustento das famílias. “Estamos passando pela maior transição demográfica da nossa história e estamos matando os jovens. Não investimos neles e ainda criamos condições de extermínio”, completa.

Um estado de guerra civil

E esse extermínio não finda no momento em que o jovem é assassinado. A morte de Danilo desestruturou Luzia, que tem mais três filhos. Além de se mudar de casa — “Se olhasse para o sofá, conseguia vê-lo sentado. Parece que eu o via em todos os locais”, explica —, ela pediu que o mais velho voltasse a morar com eles para ajudar em casa. Apesar de ainda menor de 18 anos, Danilo trabalhava e, com o dinheiro que recebia como estoquista em uma rede de supermercados em Águas Claras, ajudava os parentes. O jovem queria se alistar na Aeronáutica quando chegasse à maioridade. O pai tinha sido avisado de que conseguira um novo emprego no dia em que soube da morte. “Tinha dito para ele que era hora de recuperar várias coisas que estavam atrasadas em nossa família”, recorda-se o comerciário Edriane Medeiros de Sousa, 42 anos. Ele estava em casa e foi o primeiro a receber a notícia de que algo tinha acontecido com o filho.

“Não me contaram a verdade no primeiro momento. Só fui saber quando cheguei ao colégio, mas não deixaram nem mesmo eu me aproximar do corpo do meu filho. Hoje, consigo ter uma ideia melhor da negligência total do estado em um setor que deveria ser o melhor, que é a educação.” Tanto ele quanto a mulher já foram assaltados. O filho morto também tinha vivido a experiência de ser roubado. “Sempre que a gente se lembra da história, vê alguma foto, nos sentimos deprimidos, choramos. Isso fez desandar toda a estrutura da nossa família. Cada vez que vemos um caso parecido, a lembrança da impunidade e da insegurança se renova”, diz o pai.

Danilo entrou para a estatística mais comum de crimes no DF. A demógrafa Lucilene Dias Cordeiro foi responsável pela publicação Jovens negros e não negros: mortalidade por causas externas na Área Metropolitana de Brasília, publicado pela Codeplan. Apresentado em 2014, ele é o mais recente estudo sobre o assunto em Brasília e demonstra a nítida relação da cor da pele com os homicídios praticados na área metropolitana de Brasília, que inclui não somente o Plano Piloto e as regiões administrativas, mas o Entorno. Entre 2010 e 2012, período avaliado na obra, 90,2% dos homicídios registrados entre jovens vitimaram negros. “É evidente que o risco é maior para o negro”, garante. Ela explica que as cidades do Entorno são levadas em consideração devido à relação de dependência econômica que mantêm com o DF.

Com os números dessas cidades, os dados chegam a ser ainda mais alarmantes: enquanto em Brasília e regiões administrativas a chance de um jovem negro sofrer um homicídio é 5,6 vezes maior que a de um jovem branco, em Águas Lindas de Goiás, por exemplo, esse número pula para 15,6. “A realidade é mostrada por meio dos números. Mas é preciso que eles sejam usados para traçar políticas públicas que percebam a questão socioeconômica na qual o jovem negro está inserido”, avalia Lucilene.

Em julho de 2015, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Violência contra Jovens Negros concluiu que essa parcela da população brasileira está sendo vítima de um “genocídio simbólico”. Para a relatora da CPI, a deputada federal Rosângela Gomes (PRB-RJ), a CPI veio suprir uma demanda reprimida do movimento negro no Brasil. A parlamentar é taxativa: o país vive, atualmente, um estado de guerra civil. “Nos últimos 30 anos, matamos mais de 2,5 milhões de jovens. Fora aqueles que não foram registrados porque não há corpo. Apontamos o genocídio e o racismo institucional que existe no Brasil”, afirma.

O relatório propôs a criação de um plano nacional de enfrentamento de homicídio de jovens, que vai priorizar suas ações na população negra e pobre. Ele deve durar 10 anos, coordenado e executado pelo governo federal por meio de programas ligados à juventude e à igualdade racial. Rosângela aponta que a CPI sugeriu a criação de um Fundo Nacional de Promoção da Igualdade Racial, Superação do Racismo e Reparação de Danos. De acordo com a proposta de emenda à Constituição (PEC) que descreve o fundo, serão destinados 2% da arrecadação do Imposto de Renda (IR) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para mantê-lo. Até lá, Edriane Medeiros de Sousa espera receber alguma compensação pela morte do filho adolescente. “Ele sempre procurou o lado bom, para ele e para a família. Meu filho jamais deveu algo para a Justiça. Nada vai substituir o Danilo, mas eu queria que o Estado mostrasse que se importa.”

Reportagem: Correio Braziliense

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